textos soltos sem assunto definido

sábado, 17 de julho de 2010

Champagne e Nachos

Bruno - Eu não gosto muito de Nachos.

Maria - É, mas eu como.

B - E os daqui parecem Doritos.

M - Mas eu como.

B - Eu sei, só tô comentando.

M – Sabe de uma coisa? Eu odeio esse clima de Ano-Novo. Clima de dia um.

B - É dia primeiro. (para um garçom) A conta, por favor.

M - Ah, que seja

B - É, mas é primeiro, embora eu ache uma babaquice. Se fosse assim, dia dois tinha que ser segundo. Eu acho dia um mais sonoro que dia primeiro.

M - Verdade. Mas por que você me corrigiu então?

B - Sei lá. Adoro essa sua cara de indignada. Mas por que você odeia clima de Ano-Novo?

M - É só um dia, as pessoas agem como se tudo fosse mudar.

B - Acho que nego comemora por que é o fim de um ciclo, início de outro.

M - Mas no fundo é a mesma merda!

B - Verdade. Neguinho pode tá ferrado, pobre, alagado, sem dente, mas no dia 1º tá tudo certo.

M - Verdade. Isso aí.

B - Liguei para Luisa ontem. Aí ela falou "e em 2010, nada de sofrimento", como se tudo fosse mudar de um dia pro outro. Hoje eu tô mal, chorando pelos cantos, chutando gatos, mas como amanhã é dia 1º, eu esqueço tudo isso, estouro uma garrafa de Champagne e fico felizão e curado de todos os meus vícios, inclusive o de chutar felinos e o de roer unhas.

M - Mas sério que ela falou isso? Por quê? Você tá sofrendo?

B - Bobeira... Nada.

(silêncio)

B - Mas sabe...

M - O que?

B - Eu tenho uma teoria.

M - Vai logo porra!

B - Calma pô!

M – Você demora muito

B - Eu acho que cada ano representa um ciclo.

M - Você já falou isso pô! Aaaahhhh. Seu chato

B - Também te amo. Louca! Espera! Eu acho que cada ano representa um ciclo. Pensa só: Cada temporada de Friends dura um ano. Se Friends tivesse ido mal no 1º ano - não foi, e Friends é foda-, mas se Friends fosse ruim e tivesse ido mal no 1º ano – frisando que não foi, porque Friends é foda - , nego até podia tentar emplacar uma 2ª temporada, mas no fim desse ciclo de um ano, no máximo dois, sem sucesso, iam cancelar a série. Na escola: se você vai mal em um ciclo, um ano, você é obrigado a refazer esse ciclo, você repete de ano. Nos esportes também, se/

M - Já entendi!

B – Deixa eu completar meu raciocínio

M - Mas você demora muito.

B - Ok, mas você entendeu? Por isso que nego comemora. Eu acho; teorizando. Até porque, é Ano-Novo. Você tem o direito de fazer merda no Ano-Novo, afinal, tem 365 outros dias pela frente para consertar. É uma ótima oportunidade para encher a cara, ficar doidão e zoar por aí, e 85% das pessoas adoram isso.

M - Eu não.

B - Ok, mas 85% das pessoas adoram isso

M - Eu não.

B - Mas você entendeu né, minha representante da classe 15% séria do país?

M - É... Sei lá. Entender eu entendi, mas ainda acho uma babaquice.

B - Te adoro.

M - Eu sou linda

B – E de uma humilde sem igual...

(chega a conta)

B - Eu pago (antes que Maria faça alguma coisa, já entrega um Amex na mão do garçon, que sai de perto).

M – Ai, odeeeeeio isso em você! Argh!

B – Você me paga o próximo jantar.

M – Você sempre fala isso, mas sempre paga.

B – Eu acho o seu olho uma graça.

M - Do nada?

B – Do nada não. Eu olhei e lembrei que acho uma graça!

M – O meu olho? Não tem nada de diferente em nenhum dos meus olhos! São castanhos, normais. Você sempre diz isso, mas eles não têm nada demais.

B - Mas eles combinam com seu cabelo, que combina com sua sobrancelha. É sério, harmoniza. E harmoniza com teu narizinho e com as suas sardinhas. Fofa.

M - Ah, que lindo. FOFÃO!

B - Você pode achar uma babaquice, e até concordo em certos aspectos, assim, mas sei lá...

M - Han?! Do quê que você tá falando?

B - Desse lance de passagem de ano, ciclo.

M – De novo essa merda?

B - Sério! Isso me ajudou.

M - É? Como?

B - Ah... Ajudou.

(silencio longo)

M - Vai ficar viajando agora? Minha companhia não te agrada?

B - Quero te contar uma coisa, mas tô pensando na maneira certa. (o garçom reaparece e devolve o cartão para Bruno).

(silencio)

B - Você odeia esse clima de ano novo/

M - É!

B - Sim, mas mesmo assim, convém dizer que, em 2009, você foi uma das coisas mais importantes que me aconteceu, quiçá a mais importante.

M - Ahhhh

B - Sério. E que passemos vários anos assim, juntos.

M - Fofão!

B - Maria, eu vou falar uma coisa. Mas eu preciso que você fique quieta. Me deixa falar até o fim.

M - Eu hein?!

B – Você pode até discordar, pensar em me interromper, mas escuta até o final que vai fazer sentido. Vai parecer uma coisa e é outra.

M - Tá maluco Bruno?

B - Sério. Promete escutar até o fim?

M – Claro né?!

B - É... (silencio) Não tem nada mais importante para mim do que sua amizade, essa proximidade que a gente tem. Eu já falei, a gente têm se aproximado cada vez mais, e quanto mais nos aproximamos, mais eu gosto de você... E a gente atingiu uma relação muito... Muito próxima.
M – Você já falou “próximo, aproximado e aproximando” umas quinhentas vezes.
B – Já ta difícil, vê se colabora! Mas, como eu ia dizendo, estamos ficando bem mais... Bem mais... Ah, foda-se, bem mais próximos! E eu... Sempre gostei de você. No sentido que a gente “dá para gostar” quando gosta de alguém na 3ª série e vira namoradinho dessa pessoa. Tá, é mais profundo que pré-adolescentes de mãos dadas. Só que eu sei que você sabe que eu gosto de você bem mais do que como amigo. Mas a sua amizade se tornou tão importante para mim, que eu finjo não sentir nada, e eu já percebi que você finge não saber de nada. Mas Maria, isso tudo... Eu to apaixonado por você. Brega isso né? Sessão da Tarde. Mas é serio. Eu te amo à La Sessão da Tarde. Eu te amo à La Lagoa Azul. E tava insustentável continuar carregando isso, eu precisava te contar, mesmo sabendo que você não quer nada mais comigo. Esse ano eu só pensei em você. E isso foi ruim pra mim. Pô, umas mulhérzinhas aí me deram mole, por mais incrível que pareça. Inclusive a Paula, e dessa você já sabe. Eu posso achar ela feia, chata, mas sei lá, é só um exemplo. E eu nem acho ela tão feia ou tão chata, falava isso mais para te agradar! Na verdade ela é bonitinha e simpática! Eu dei um “perdeu” nela! Isso porque tava pensando em você. E isso me faz mal, porque eu sei que você não pensa em mim da mesma maneira. Pô, to me sentindo um babaca sentimental. Eu tô sendo um babacão sentimental. Bem, o que eu quero dizer, é que eu te amo. Com toda a força dessa palavra. Eu sei que você não usa “te amo”, nem eu. É nosso pactozinho, um dos nossos milhões de pactozinhos de amizade, porque, você adora dizer, é “uma palavra muito mais forte do que palavras fortes como Luz ou Pênis”. Eu te amo. E sei lá se isso é ou não é brega. Deve ser. Mas eu te amo. Só que, mais do que tudo, para confusão de todo o meu eu sentimental, eu te amo como amiga. E em prol da nossa amizade, eu quero continuar te vendo todo dia, falando todo dia com você, porque eu preciso disso e eu sei que você também precisa disso. Então, eu vou continuar sendo seu amigo. E você, minha melhor amiga. Mas vou tentar parar de pensar em você de outra maneira. E vou tentar sair com outras garotas, falar com outras pessoas... Mas você também vai ter que me dar mais espaço. Por isso eu falei em fim de ciclo. Porque eu passei esse ano todo atrás de você, pensando em você, e isso não foi bom para mim. Quer dizer, foi, mas não foi. Esses ciclos me ajudaram a ver que, se em um ano não rolou, não adianta tentar de novo tanto assim. É isso. Nós somos uma temporada de Friends que foi cancelada. Friends não, porque Friends é foda. Não que a gente não seja foda, mas uma temporada de Friends dá certo pra todo mundo e não precisa ser cancelada. A gente é uma temporada de Scrubs. Scrubs deu certo, mas eu nunca gostei. Por mim pode ser cancelado.

(silêncio muito longo. constrangedor)

B - Desculpa, mas...

M - Mas o que?!

B – Mas... Mas eu não consigo gostar dos Nachos daqui de jeito nenhum. Eles definitivamente me lembram Doritos...
M – Ah...

(silêncio)

M – Bruno... eu não sabia. Não sabia que...

B - Que?

M – Disso tudo.

B – Ah...

M – Que você se sentia assim. Sei lá... Em relação a isso tudo. Sofria.

B – Pois é. Mas relaxa. É por isso que falei de ciclos e tal. Eu tô legal agora. Esse ciclo passou na minha cabeça. E falar isso tudo me fez bem. Eu tirei uma mini-orca de dentro do meu cérebro. Eu tô bem... O que me deixa mal são esses Doritos que você chama de Nachos.

M - Ah... tá. Acho... que... Que bom então. Eu acho. (o celular vibra e ela lê uma mensagem de texto no visor). O meu pai...

B - Você tem que ir?

M - Tenho.

B – Tranqüilo. Vai lá que já tá pago.

M – Você não vem comigo até o carro do papai?

B – Não, não. Vou ficar por aqui e encontrar uma amiga.

M - Então tá... Tchau. (levanta-se)

Bruno acompanha cada passo de Maria a caminho da porta, até ela sair do restaurante. Come o último nacho do pote (eles são realmente uma bosta), termina de beber sua coca-cola e enfia um garfo dentro do olho.

12 comentários:

izabel felício disse...

Nossa, nem sei que palavras usar para expressar o quanto eu gostei, ri e fiquei emocionada com esse texto :)

Julia Klien disse...

Amei.

Giulianna disse...

HSUAHSUAHSUAS' Adogueei!

Fábio disse...

texto massa, não igual a uma massa de pizza, mas massa.. vc entendeu rsr

já tive esse coragem, não enrolei tanto pra dizer.. mas ainda bem q passou o "ciclo" ou eu estava morto...

Daniel, como disse seu irmão pra mim q ninguem é normal.. eu acho vc meio doido rrsrs

@larissalara_ disse...

por que ele enfia o garfo no olho?

Anônimo disse...

nao entendi

luizayabrudi disse...

eeeeee! enfim terminou esse ciclo desse texto! parabens! tem certos ciclos que são bons de terminar, ne? to orgulhosa!

Daniel Belmonte disse...

Yabba! Que foda que curtiu!!!! Ihiiiii

Iara gatinha disse...

Eu naoo acredito q eu fiquei esse tempo td lendo isso hahahaaha =D

Anônimo disse...

Nãao acredito q fiquei esse tempo td lendo isso HAHAHA =)

Kamyle disse...

Gostei,
Quando comecei a ler não pensei que fosse achar isso, mas o decorrer realmente me surpreendeu, deu até uma espécie de melancolia, mas o própio texto se encarrega de quebrar isso, heheh, anyway, muito bom, meus parabéns! xP

Verena Borges disse...

Gostei, de verdade. Só o final que foi meio estranho. Sei lá, parece que ficou faltando um desfecho, tipo, porque simplesmente não tem como terminar assim. Eles teriam que se falar outra vez, tentar resolver isso, quem sabe voltar com a amizade! Tá, talvez eu só tenha ficado muito curiosa com uma possível continuação. Mas foi legal, sério.